Brasil, um país de todos? 06,11,06
Posted by dres2ie in Manifesto, Érica Sant'Ana.add a comment
As condições dos ocupantes do antigo prédio do Departamento de Engenharia da Companhia Docas-RIO, desativado há cerca de 10 anos devido a um incêndio, não são das mais confortáveis. Localizado na Avenida Francisco Bicalho, centro do Rio de Janeiro, o prédio foi encontrado aberto, em total abandono e aparentemente sem condições de uso. Após uma breve organização no primeiro andar, o grupo de ocupação conseguiu instalar, mesmo de forma precária, 150 pessoas que estão vivendo lá desde o início de outubro.
De acordo com o assessor de imprensa da Companhia DOCAS, Fernando Paulino, é permitido a entrada de alimentos ou qualquer utensílio necessário para que os ocupantes consigam se manter no prédio, contanto que empresa seja previamente avisada de sua entrada. De acordo com os moradores, o prédio encontra-se monitorado 24 horas por dia pela segurança da empresa, que se mantém armada. Por medidas ainda não esclarecidas, a empresa não permite a entrada de grandes quantidades de alimentos. Da mesma forma, proíbem a entrada de eletrodomésticos, camas e qualquer outro utensílio que possa amenizar as condições desumanas nas quais os ocupantes se encontram.
Desde a invasão do prédio público, na madrugada do dia 8 para o dia 9 de outubro, a entrada de alimentos foi embargada por aproximadamente quatro dias, obrigando, assim, que os grupos de apoio (pessoas que aderem o movimento de ocupação e que se localizam na parte externa do prédio) cerrassem um pedaço de aproximadamente 30cm da grade para a entrada de mantimentos para os ocupantes.
A falta de luz no prédio é outra medida imposta pela Companhia, colocando em risco a vida dos moradores, que são compostos principalmente por mulheres, crianças e idosos. A reativação parcial e emergencial da energia do prédio através de ligações clandestinas foi interceptada pela segurança e o prédio encontra-se novamente sem energia elétrica.
Já o abastecimento de água potável é feito através da compra e doações de galões de água. Para os demais fins, o grupo de apoio se encarrega do fornecimento da água que obtém em baldes, nas proximidades da Rodoviária Novo Rio.
Todas as decisões do grupo para administrar esse processo de ocupação ocorrem de forma coletiva, que são duas reuniões diárias para estabelecer desde ações judiciais, até a escolha do que irão comer. As medidas são adotadas para uma maior democratização e integração entre os membros da ocupação conhecida por Quilombo das Guerreiras.
Reportagem: Érica Sant’Ana
Texto: Érica Sant’Ana
Imagens: Sabrina Gregori
Edição: Davi Jovencio Érica Sant’ Ana
Ruas impedem o livre acesso de pessoas 23,10,06
Posted by dres2ie in Espaços públicos, Raquel Salomão.add a comment
Segundo a Constituição, a rua é um espaço público. Todos, sem distinção, podem circular livremente pelas ruas. Na prática essa lei nem sempre é respeitada. Algumas ruas são fechadas por cancelas e guaritas com guardas, por condomínios de luxo, sendo permitida apenas a entrada de moradores. A explicação dos condôminos e empregados é que a utilização de cancelas é um método para garantir segurança.
A rua Leblon, transversal que liga a General San Martin à avenida Delfim Moreira, usava uma cancela para controlar a passagem de pedestres. Um morador, que não quis se identificar, afirmou que a cancela não estava surtindo efeito. “Muitas pessoas conseguiam passar pela rua”, diz o residente de um dos edifícios. Foi tomada uma medida ainda mais radical: instalou-se uma grade que impede a passagem de pessoas não autorizadas por moradores. “Até a grade, a rua é pública; dela pra cá, é privada”, disse um segurança que não quis se identificar e estava do lado de dentro da grade. A síndica do prédio também não quis dar informações a respeito e os porteiros afirmaram ter ordens para “não falar nada”.
Outra rua que utiliza cancelas é a Leôncio Correia, localizada na esquina da Avenida Visconde de Albuqueque. Esta, porém, usa um sistema mais aberto em relação a transeuntes e visitantes, já que estes também podem freqüentar o espaço. Existem duas cancelas: uma para residentes e outra para visitantes. Através da utilização de um sensor, o carro do morador é reconhecido e a cancela se levanta automaticamente. Um segurança, que pediu para não ser identificado, disse que o local não é apenas um condomínio fechado, mas uma associação de moradores com autorização junto à prefeitura pra utilizar cancelas.
A rua abriga a Associação de Moradores do Jardim Pernambuco e Visconde de Albuquerque. Dentro do espaço do condomínio é possível observar placas que informam a existência da associação. De acordo com o mesmo segurança, ele possui ordens para tentar impedir a entrada de carros de pessoas de fora, pois o local estava sendo confundido com estacionamento público, mas o acesso ao interior do condomínio é livre. Existe, inclusive, uma praça aberta à visitação pública, com brinquedos infantis que são utilizados por crianças das imediações. Só há uma restrição para o visitante: é proibido tirar fotos no interior do condomínio.
Margareth dos Santos Silva, 42 anos, moradora da rua Almirante Guilhem, paralela da rua Leblon, considera um absurdo a colocação de cancelas e grades para impedir a passagem de pessoas:
- Ruas são espaços públicos. Ninguém pode impedir a passagem de pedestres. É um absurdo a concessão da prefeitura para que cancelas sejam instaladas. A rua Leblon chegou ao cúmulo de colocar uma grade. Isso é inaceitável!
Apesar de revoltar pedestres e moradores das redondezas, as duas ruas adotaram as medidas de segurança com autorização da prefeitura e, portanto, dentro da lei.
Reportagem: Raquel Salomão
Texto e Imagens: Raquel Salomão
Edição: Sabrina Gregori e Davi Jovencio